FAA publica InFo para recomendação de treinamento para desorientação espacial para operadores aéreos sujeitos aos regulamentos PART-91, PART-91K e PART-135 – ie, do transporte particular, incluindo aeronaves compartilhas, e transporte público por demanda/fretamento, em 05.02.26
A agência federal de aviação civil americana FAA publicou o InFo (Information for Operators – Informação para operadores) 26003, com data de 22/01/2026, com o assunto “Spatial Disorientation (SD) Training for Pilots” (Desorientação espacial – Treinamento para pilotos)
InFO 26003, com data de 22/01/2026:
https://www.faa.gov/other_visit/aviation_industry/airline_operators/airline_safety/info/all_infos/InFO26003.pdf
O objetivo do InFO é recomendar o treinamento para desorientação espacial para operadores aéreos sujeitos ao Título 14 do Código de Regulamentos Federais (14 CFR) PART-91 (General Operating and Flight Rules – Operação geral e regras de vôo), e PART-91K (Fractional Ownership Operations – operações de propriedade compartilhada) e PART-135 (Operating Requirements: Commuter and on Demand Operations and Rules Governing Persons on Board Such Aircraft – Requisitos operacionais: Operações de transporte de passageiros e sob demanda e regras que regem as pessoas a bordo dessas aeronaves). Estes segmentos equivalem, no Brasil, às operações regidas pelos regulamentos RBAC-91 (“Requisitos gerais de operação para aeronaves civis”), RBAC-91 subparte K (“Operações de aeronaves de propriedade compartilhada) e RBAC-135 (“Operações de transporte aéreo público com aviões com configuração máxima certificada de assentos para passageiros de até 19 assentos e capacidade máxima de carga paga de até 3.400 kg (7.500 lb.), ou helicópteros”.
Contexto: na Recomendação de Segurança A-21-006, de 25/02/2021, o Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB) identificou a Desorientação Espacial como um problema de segurança relacionado a um acidente fatal de um helicóptero Sikorsky S-76B, ocorrido em 26/01/2020, em operação PART-135 (com colisão contra terreno em Calabasas, na California), de grande repercussão, e orientou a Administração Federal de Aviação (FAA) a convocar um painel para avaliar tecnologias de simulação de desorientação espacial, a fim de determinar quais aplicações são mais eficazes para treinar pilotos a reconhecer e mitigar a desorientação espacial.
Com base nos dados de investigação de acidentes do NTSB, a Desorientação Espacial de piloto continua sendo um fator contribuinte para acidentes.
A Desorientação Espacial ocorre quando a percepção da atitude do vôo pelo piloto não corresponde à realidade, frequentemente devido à falta de referências visuais ou a sinais conflitantes dos sistemas sensoriais do corpo. O Grupo de Trabalho de Treinamento em Desorientação Espacial (SDT WG – Spatial Disorientation Training Workgroup) apresentou recomendações para consideração pelo Comitê Diretivo do Comitê de Regulamentação da Aviação de Treinamento de Companhias Aéreas (ACT ARC – Air Carrier Training Aviation Rulemaking Committee) nos dias 25 e 26 de janeiro de 2023. O Comitê Diretivo do ACT ARC adotou as recomendações e as encaminhou à FAA em 10 de maio de 2023. Para reduzir a possibilidade de acidentes relacionados à desorientação espacial no futuro, a FAA recomenda que operadores e provedores de treinamento incorporem treinamento teórico e prático em desorientação espacial em suas operações.
Discussão: considerando que aproximadamente 80% de todos os acidentes de aviação envolvem fatores humanos, a FAA recomenda um foco maior no treinamento em Desorientação Espacial além do escopo das diretrizes atuais. O treinamento em Desorientação Espacial deve enfatizar a prevenção de condições em que a desorientação espacial pode ocorrer, bem como o reconhecimento do início e da recuperação de eventos de desorientação espacial.
O treinamento em Desorientação Espacial deve incluir os tipos de treinamento, métodos de treinamento e áreas de ênfase especial, descritos abaixo.
A – Tipos de treinamento
[1] Treinamento baseado em cenário (Scenario-Based Training) – este treinamento deve incluir cenários inesperados que simulem situações operacionais reais onde a desorientação pode ocorrer, a fim de desenvolver habilidades práticas de vôo em um ambiente operacional.
[2] Treinamento baseado em manobras (Maneuver-Based Training) – este treinamento deve se concentrar em isolar eventos ou manobras individuais em um ambiente controlado. Ao fazer isso, os pilotos podem obter uma compreensão mais profunda de como essas situações podem levar à desorientação espacial e aprender estratégias eficazes para reconhecer, neutralizar e se recuperar de tal desorientação.
B – Métodos de treinamento (Training Methods)
Participar de um programa de treinamento abrangente, composto por treinamento teórico e prático, que incorpora uma sólida base acadêmica, juntamente com treinamento em solo e em vôo, aumenta ainda mais a eficácia do treinamento em desorientação espacial.
O treinamento teórico consiste em aulas conceituais, que abordam os sistemas e estruturas fisiológicas envolvidos e os mecanismos pelos quais os pilotos experimentam desorientação espacial. O treinamento teórico estabelece a base a partir da qual a consciência situacional, a percepção, o conhecimento e as habilidades são desenvolvidos e, portanto, deve ser concluído antes do treinamento prático para os eventos de vôo associados.
O treinamento prático consiste na exposição a estímulos que provavelmente produzirão desorientação espacial, seja em uma aeronave ou em um dispositivo de treinamento em solo adequado. Essa exposição permite que o piloto correlacione as sensações e percepções experimentadas durante a desorientação espacial com o conhecimento obtido no treinamento teórico.
Os métodos de treinamento que podem ser incorporados a um programa de treinamento abrangente incluem:
[1] Treinamento em sala de aula (Ground School Training) – o treinamento teórico ajuda o piloto a entender as causas da desorientação, os fatores fisiológicos e ambientais e a importância de confiar nos instrumentos da energia em vez dos estímulos sensoriais.
[2] Treinamento em simulador:
(a) Simuladores de vôo completos (FFS – Full-Flight Simulators) – oferecem ambientes realistas de cabine de comando e podem simular vários cenários de desorientação espacial, como perda de referências visuais e atitudes incomuns.
(b) Treinadores de desorientação espacial (Spatial Disorientation Trainers) – dispositivos específicos projetados para criar ilusões e preparar os pilotos para reconhecer e se recuperar da desorientação espacial.
[3] Treinamento em vôo (In-Flight Training) – em condições controladas, instrutores de vôo podem demonstrar a facilidade com que a perda de consciência situacional, e a desorientação espacial, pode ocorrer e ensinar técnicas de recuperação. O treinamento em vôo geralmente inclui voar apenas com instrumentos, usando dispositivos de limitação de visão para bloquear a visão externa e reforçar a confiança nos instrumentos da aeronave em vez da percepção sensorial.
[4] Curso de Reciclagem (Refresher Training Course) – todos os pilotos devem participar de cursos regulares de reciclagem em solo e em vôo para reforçar a compreensão das causas comuns de desorientação espacial e praticar técnicas de varredura de instrumentos (instrument scanning), incluindo a verificação cruzada de dados de múltiplas fontes (por exemplo, EFB – ‘pasta’ de vôo eletrônica, recursos do controle de tráfego aéreo (ATC) e etc.). O treinamento de reciclagem também deve revisar o reconhecimento da desorientação espacial e as técnicas de recuperação.
C – Áreas de ênfase especial
[1] Locais comuns – os pilotos devem ser treinados para reconhecer locais comuns de desorientação espacial, incluindo mas não limitados a, entre outros:
[i] áreas montanhosas,
[ii] baixas altitudes,
[iii] regiões costeiras,
[iv] áreas pouco ocupadas/povoadas, e,
[v] locais sem avisos meteorológicos.
Operadores e pilotos devem permanecer vigilantes ao realizar operações nesses tipos de locais, que podem levar à desorientação espacial.
[2] Condições ambientais comuns – os pilotos devem ser treinados para reconhecer condições ambientais comuns de desorientação espacial, incluindo mas não limitadas, entre outras:
[i] precipitação intensa,
[ii] áreas com mudanças climáticas rápidas,
[iii] operações noturnas,
[iv] áreas com formação comum de nevoeiro, e,
[v] zonas de baixa visibilidade induzidas pela poluição e proximidade de erupções vulcânicas.
Operadores e pilotos devem permanecer vigilantes em relação a essas condições ambientais que podem resultar em desorientação espacial.
[3] Reconhecimento e aceitação imediatos
A consciência e a vigilância durante o vôo ajudam os pilotos a aprender a identificar rapidamente os sintomas de desorientação espacial. Uma vez reconhecidos, os pilotos podem aceitar que estão sofrendo de desorientação espacial e confiar imediatamente nos instrumentos da aeronave para corrigir quaisquer percepções espúrias. Ignorar ou lutar contra a desorientação pode levar a situações perigosas.
[4] Estratégias de recuperação
Seguindo as estratégias abaixo, os pilotos podem gerenciar e se recuperar melhor de situações de desorientação espacial, aumentando a segurança e reduzindo o risco de acidentes. É importante lembrar que estas não são todas as estratégias disponíveis; pode haver estratégias adicionais que um operador pode desenvolver a seu critério.
4.1 – Confiar nos instrumentos. É imprescindível que os pilotos aprendam a confiar nos instrumentos de vôo em vez de suas percepções sensoriais quando se sentirem desorientados. Os instrumentos de vôo fornecem dados objetivos sobre a orientação da aeronave e são cruciais para um vôo seguro.
4.2 – Voar reto nivelado. Se ficar desorientado, o piloto deve se concentrar em voar em linha reta e nivelado usando os instrumentos de vôo da aeronave até recuperar a consciência situacional.
4.3 – Verificação cruzada (cross-check) os instrumentos. É imprescindível que os pilotos façam verificação cruzada (cross-check) regularmente vários instrumentos de vôo para garantir que estejam fornecendo informações consistentes. Isso pode ajudar a confirmar a verdadeira orientação da aeronave.
4.4 – Evitar movimentos bruscos. Os pilotos devem fazer ajustes suaves e graduais nos controles da aeronave, bem como nos movimentos da cabeça e do corpo, para minimizar o risco de maior desorientação.
4.5 – Recuperar a referência visual. Os pilotos podem optar por recuperar as referências visuais descendo para uma altitude segura conhecida mais baixa ou subindo para uma altitude mais alta onde possam ver o solo ou o horizonte. Uma vez em condições visuais, os pilotos devem permanecer em condições meteorológicas visuais durante o restante do vôo.
4.6 – Manter a calma e o foco. O pânico pode piorar a desorientação. Ao vivenciar a desorientação espacial, os pilotos devem respirar fundo algumas vezes e se concentrar no treinamento recebido, nos procedimentos de recuperação e nas listas de verificação disponíveis. Em uma operação com tripulação de dois pilotos, o piloto que estiver vivenciando a desorientação deve comunicar o que está sentindo ao outro membro da tripulação e coordenar o controle da aeronave assim que possível.
4.7 – comunicação com o ATC (controle de tráfego aéreo). Se disponível, os pilotos devem comunicar sua situação ao ATC para obter mais assistência e orientação.
[5] Uso apropriado do sistema de piloto-automático
Se disponível, o piloto-automático deve ser acionado para manter a estabilidade e o controle da aeronave. Isso pode dar ao piloto tempo para recuperar da desorientação espacial e da perda da consciência situacional e recuperar perda de controle.
Ação recomendada: diretores de operações e pilotos-chefes de operadores PART-135 e os operadores de aviação geral (PART-91) e de aeronaves compartilhadas (PART-91K) devem desenvolver módulos de treinamento de desorientação espacial para pilotos, incluindo treinamento em solo, simulador (se disponível) e treinamento em vôo, para integração em seus programas de treinamento.
Os operadores PART-135 também devem desenvolver e integrar os seguintes tópicos em seus manuais de operações gerais: procedimentos para conscientização e prevenção sobre desorientação espacial, reconhecimento do início desorientação espacial e técnicas de recuperação.
Entre outras fontes de informação, o InFo indica os trabalhos diretamente associados e específicos no tema de desorientação espacial:
1 – Spatial Disorientation – Visual Illusions (Desorientação espacial – ilusões visuais) – brochura FAA:
https://www.faa.gov/pilots/safety/pilotsafetybrochures/media/spatiald_visillus.pdf
2 – Recomendações do Comitê Diretivo do Comitê de Regulamentação da Aviação de Treinamento de Companhias Aéreas (ACT ARC – Air Carrier Training Aviation Rulemaking Committee)
2.1 – Simulation Training Devices Suitable for Spatial Disorientation Training (Dispositivos de treinamento de simulação adequados para treinamento de desorientação espacial) – “230510” (10/05/2023)
https://www.faa.gov/about/office_org/headquarters_offices/avs/offices/afx/afs/afs200/afs280/act_arc/act_arc_reco/ACT_ARC_Rec_23-1_Simulation_Training
2.2 – PART-135 Helicopter Operations Spatial Disorientation Training (Treinamento de desorientação espacial para operações de helicóptero – PART-135) – “230510” (10/05/2023)
https://www.faa.gov/about/office_org/headquarters_offices/avs/offices/afx/afs/afs200/afs280/act_arc/act_arc_recoACT_ARC_Rec_23-2_Part_135_Helicopter_Operations
