Hostilidades com o Irã geram incertezas para o cenário da aviação executiva no Oriente Médio, que pode levar meses para se recuperar, em 13.04.26
Em post no dia 10 na plataforma online da AIN, Peter Shaw-Smith, colaborador da mídia para Oriente Médio, repercutiu o atual cenário da aviação executiva no Oriente Médio por efeito da guerra no Irã.
Shaw-Smith, retrospectivamente, avaliou que, enquanto aproveitavam o fim de semana ao ar livre em 28 de fevereiro, poucos moradores de Dubai perceberam imediatamente que o Golfo Pérsico estava, mais uma vez, em meio de uma guerra, ao ouvirem explosões distantes, mas quase palpáveis. E que um mês depois, não havia um fim claro à vista. No início de abril, o presidente Trump insinuou que a guerra poderia terminar em “duas a três semanas”, mas a imprevisibilidade da geopolítica do Oriente Médio pode significar que a decisão não depende inteiramente dele. Ansiosos para garantir o fornecimento de alimentos e petróleo, os Emirados Árabes Unidos ameaçaram entrar na guerra para reabrir o Estreito de Ormuz.
A retaliação iraniana aos bombardeios EUA-Israel levou a incidentes graves, incluindo um ataque com drones ao Aeroporto Internacional de Dubai (OMDB), em 07 de março, que interrompeu brevemente as operações. A demanda por vôos fretados privados de evacuação e resgate aumentou drasticamente após a atividade de mísseis interromper repetidamente os vôos de repatriação organizados pelo Estado.
Um ataque em 18 de março ao centro de processamento de GNL de Ras Laffan, no Catar, causou danos extensos, comprometendo cerca de 17% da capacidade, com reparos que provavelmente levarão de três a cinco anos.
Os ataques com mísseis iranianos no final de março contra aeroportos no Kuwait e no Iraque, e um ataque a uma base aérea do EUA na Arábia Saudita, ressaltaram o perigo para as aeronaves, mesmo em solo. No entanto, a aviação comercial retomou quase totalmente suas operações: dados da Cirium divulgados em 27 de março mostraram que apenas 13% dos vôos regionais programados foram cancelados ou suspensos naquele momento.
Desde o início da guerra, as defesas aéreas do Emirados Árabes Unidos interceptaram mais de 430 mísseis balísticos e 20 mísseis de cruzeiro, além de 2.000 drones.
A agência de notícias WAM informou que dois soldados emiratis e um marroquino contratado pelas forças armadas foram mortos, além de nove civis. Cerca de 190 pessoas não emiratis sofreram ferimentos diversos.
Avisos em constante evolução
Hany Bakr, vice-presidente sênior de segurança aeroportuária e marítima da MedAire no Cairo (Egito\0, afirmou que os operadores de aviação executiva estão lidando com NOTAM em rápida mudança, avisos de zonas de conflito em constante evolução e fechamentos e restrições de espaço aéreo com pouco aviso prévio, o que complica significativamente o planejamento de vôos.
“Os principais fatores de risco na região são a volatilidade e a imprevisibilidade do espaço aéreo, e não uma única ameaça fixa”, Bakr disse para a AIN.
Os vôos têm enfrentado rotas mais longas, maior consumo de combustível, limitações na jornada de trabalho da tripulação e restrições de seguro. A resistência coletiva das tripulações em operar certos vôos, além dos limites de risco aceitáveis, está levando a adiamentos e interrupções.
Eric Schouten, CEO da Dyami Security Intelligence, declarou para a AIN que o Catar, o Emirados Árabes Unidos e o Bahrein continuam sendo as áreas de maior preocupação para as operações de aviação executiva. As ameaças envolvem ataques do Irã a áreas turísticas ou centros comerciais que abrigam bancos ou empresas americanas, bases militares ou aéreas, portos e embaixadas. “O Irã ainda possui uma enorme quantidade de mísseis balísticos e drones”, Schouten disse para a AIN. “Eles só precisam lançar um ou dois por dia para causar problemas”, Schouten completou.
Queda acentuada nos movimentos
A provedora de dados por rastreamento de vôo WingX Advance estimou uma queda de 41% nas partidas de jatos executivos no Oriente Médio no final de março, com um declínio de 14% no acumulado do ano.
Dados da outra provedora de informação Argus International compartilhados com a AIN sobre a atividade de jatos executivos mostraram que os movimentos mensais no Oriente Médio caíram 58% em março em comparação com fevereiro de 2026, enquanto o número anual de março de 2026 em relação a março de 2025 caiu 55%.
“Normalmente o principal país, o Emirados Árabes Unidos, registrou quedas na base mensal de 81% e na base anual de 75%”, disse Travis Kuhn, vice-presidente sênior de software. “Os únicos países que apresentaram aumento na atividade [na base de comparação anual] anual foram Egito, Omã e Síria”, revelou Kuhn.
A operadora americana de propriedade compartilhada de aeronaves Flexjet, que obteve uma licença para operar vôos domésticos na Arábia Saudita em dezembro, suspendeu suas atividades até novo aviso para a maioria dos destinos no Oriente Médio, exceto Chipre, Turquia, Armênia e Azerbaijão.
“Até que a Flexjet determine que o espaço aéreo ou as condições em solo atendam a um nível de segurança compatível com nossos rigorosos padrões, prosseguiremos com restrições operacionais autoimpostas”, disse um porta-voz da Flexjet para a AIN.
Situação se estabiliza
Dumani Ndebele, diretor regional de FBO (provedora de serviços de suporte e logística em aeroportos) da ExecuJet Oriente Médio, afirmou que, no início de março, muitos operadores de aviação executiva estavam se posicionando para vôos fretados. “Houve um grande movimento durante as duas primeiras semanas. A situação agora se estabilizou. Estamos observando uma redução no tráfego, dada a incerteza da situação, mas muitos de nossos clientes do Oriente Médio ainda estão na região e nosso hangar está lotado”, Ndebele disse para a AIN.
Mohammed Husary, presidente executivo da UAS International Trip Support, disse que a aviação executiva continua sendo crucial para governos, ONG e entidades comerciais do Oriente Médio.
“Estamos vendo operadores, prestadores de serviços e fornecedores demonstrarem notável agilidade e visão de futuro, ajustando planos de vôo, fortalecendo a gestão de riscos e aproveitando informações em tempo real para garantir o bem-estar tanto da tripulação quanto dos passageiros”, disse Husary para a AIN.
Custos do combustível dobram
O Monitor de Preços de Combustível de Aviação (Jet Fuel Price Monitor) da IATA indicou o preço médio semanal do combustível em US$ 195,19 por barril na semana que terminou em 27 de março, uma queda de 1% em relação à semana anterior, mas um aumento de 104% em relação ao mês anterior. O índice Platts Global Index New York, em 1º de abril, estava em US$ 198,90 por barril.
A WingX Advance informou, no dia 02, que os preços do combustível de aviação no EUA mais que dobraram desde o início de março, chegando a US$ 1.710 por tonelada (equivalente a US$ 2,13/litro) no final do mês, em comparação com apenas US$ 742/ton. |(cerca de US$ 0,92/litro\) um ano antes, um aumento de 130,45%.
Vito Gomes, CEO da Aviation Services Management, em Dubai, disse ser difícil prever a perspectiva para os preços do combustível na região. “Tudo depende da crise na região de Ormuz, onde há problemas com o transporte do produto”, Gomes observou para a AIN.
Se a situação se agravar ainda mais, será necessário disponibilizar suprimentos para transporte de fora do Golfo, especialmente para atender aos mercados da Ásia e do Oriente Médio.
“Muita coisa aconteceu desde 28 de fevereiro”, disse Ndebele. “Inicialmente, houve o fechamento do espaço aéreo [na primeira semana da crise]; naquele momento, todas as nossas operações praticamente pararam. Foi mais uma questão de recalibrar — entrar em contato com as autoridades aeroportuárias e a Autoridade Geral de Aviação Civil [GCAA] para entender o que estava acontecendo”, falou Ndebele.
Ndebele espera ver algum tipo de estabilidade, desde que haja certeza no mercado, permitindo vôos fretados e a entrada e saída de pessoas. “A maioria dos nossos clientes está localizada aqui na região e possui aeronaves. Esperamos que essa parte do nosso negócio continue normalmente”, falou Ndebele.
Conflito prolongado
O diretor de operações da operadora de aeronaves executivas global Vista, Nick van der Meer, afirmou que as operações permanecem altamente limitadas devido às restrições do espaço aéreo, preocupações com a segurança e incertezas operacionais.
“Um conflito prolongado provavelmente impactaria a demanda e as operações, embora o setor permaneça adaptável. De forma geral, esta continua sendo uma situação dinâmica e estamos monitorando de perto os desdobramentos, priorizando a segurança e a integridade operacional”, falou van deer Meer.
Antes do início da guerra, a Universal Weather and Aviation planejava lançar unidades de FBO em Riad, Jidá e Dammam em poucos meses. A empresa afirmou que a estratégia permanece em vigor.
“Reconhecemos que um conflito prolongado pode impactar os níveis de atividade de vôo no curto prazo e que o tráfego na inauguração pode ser menor do que o previsto inicialmente. Dito isso, isso não altera nosso compromisso de colocar esses locais em operação e iniciar as operações na Arábia Saudita”, disse John Hewett, vice-presidente regional da provedora no EMEA, para a AIN.
Mohammed Al Bokhari, CEO da Aviation Horizons, em Jeddah, lamentou uma série de problemas no Egito, Líbano e Síria, desde a pandemia e a Guerra dos Doze Dias com o Irã, e outra guerra. “Toda vez que dizemos – Ok, as coisas vão se estabilizar -, surge algo novo”, Al Bokhari lamentou para a AIN.
Shaw-Smith finaliza seu artigo uma visão que o Oriente Médio está caminhando numa direção que ninguém consegue prever e, a menos que a situação se estabilize, o planejamento se torna difícil.
“Esta guerra mudará muitas coisas no futuro, politicamente. O Oriente Médio não se recuperará por pelo menos mais três meses [após o fim da guerra], tempo suficiente para que as pessoas entendam o que realmente está por vir”, falou Al Bokhari. [EL] – c/ fonte
