AENA oferece R$ 2,9 bi (ágio de 211%) e fica com a concessão do aeroporto Galeão, em 31.03.26
O grupo espanhol AENA venceu o leilão do aeroporto internacional Galeão, no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (30), com lance de R$ 2,9 bilhões, cerca de 211% acima da oferta mínima de R$ 932,8 milhões definida no edital.
Atual administradora do aeroporto, com 51% de participação, a RioGaleão – formada pela Changi Airport, de Cingapura, e pela gestora brasileira Vinci Compass – participou do leilão, mas acabou perdendo a disputa. A atual concessão do Galeão é detida pela RioGaleão, com 51% de participação, e a INFRAERO (49%).
O leilão também teve a participação da Zurich Airport, que travou intensa disputa em lances viva-voz com a AENA, com lances que começaram em R$ 1,5 bilhões.
Os envelopes com as propostas foram abertos a partir das 15h, na B3, em São Paulo, mas a disputa acabou chegando aos lances em viva-voz, com as três concorrentes na disputa.
A AENA e a Zurich apresentaram propostas iniciais de R$ 1,5 bilhões (60,80% acima do valor mínimo), enquanto a RioGaleão ofertou R$ 934 milhões (0,13% acima). Após 26 lances, a AENA fez a oferta final de R$ 2,9 bilhões (210,88% maior que o patamar inicial).
O grupo vencedor terá de pagar à União uma contribuição variável anual correspondente a 20% do faturamento bruto da concessão até 2039.
Em 2024, o faturamento da RioGaleão somou R$ 1,14 bi, um crescimento de 37,4% sobre o obtido um ano antes, segundo relatório da companhia.
Entre 17 aeroportos brasileiros que detém sob concessão, a AENA opera-administra o aeroporto de Congonhas, na cidade de São Paulo, após vitória leilão em 2022, quando o terminal foi incluído em um bloco com outros 10 aeroportos do país pelo qual a empresa espanhola ofereceu R$ 2,45 bilhões. Com a concessão do Galeão, a AENA passa a operar o segundo (Congonhas – com 24.491.178 passageiros) e terceiro (Galeão – 17.906.990 passageiros) aeroportos mais movimentados do Brasil, seguido por Brasília (com 116.713369 passageiros). O ranking é liderado pelo aeroporto internacional de Guarulhos (SP), com 47.188.085 passageiros.
O presidente da AENA Brasil Santiago Yus disse que, com a vitória no leilão de concessão do Aeroporto Internacional do Galeão, a empresa passa a ter condições de atuar de forma coordenada com o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, o que permite oferecer “condições especiais aos clientes”.
Numa coletiva de imprensa, Yus observou: “Todas as nossas operações no mundo são coordenadas, seja dentro ou fora do Brasil também. Essa coordenação nos permite também trazer condições especiais para todos os nossos clientes”. E prosseguiu: “Isso faz com que consigamos trazer muitas sinergias […] Não são apenas sinergias do ponto de vista da atividade e do tráfego, mas também sinergias para trazer melhores operações comerciais, melhor experiência para o passageiro e também sinergias do ponto de vista das despesas”.
Para matéria do jornal O Globo (no dia 30), analistas avaliam que a AENA passa a controlar dois terminais estratégicos do eixo Rio-São Paulo. Os lances agressivos para levar o terminal, segundo os especialistas, mostram que o Brasil é um mercado prioritário para o grupo, mas a AENA terá o desafio de tornar o Galeão um hub internacional competitivo.
“O principal desafio será reposicionar o Galeão como hub internacional competitivo, um perfil diferente dos terminais domésticos e regionais que a AENA opera até agora no país. A gestão da relação Congonhas-Galeão [rotas complementares ou concorrentes] também será um ponto de atenção”, diz Pedro Abrão Jr., especialista em direito empresarial. Para Abrão Jr., o ágio recorde valida o modelo de venda assistida desenhado entre a União e o Tribunal de Contas da União (TCU) e sinaliza confiança do mercado nas novas regras da concessão, especialmente a troca da outorga fixa pela contribuição variável de 20% da receita bruta.
Para Ivana Cota, advogada do Ciari Moreira Advogados, e especialista em infraestrutura e regulatório, a saída da INFRAERO da concessão vai simplificar a governança e centraliza a gestão na concessionária privada. “A partir de agora, o foco passa a ser a transição da concessão e a implementação do novo ciclo contratual. Esse processo envolve a assunção das obrigações pela nova concessionária e o alinhamento com o poder concedente para garantir continuidade dos serviços e execução dos investimentos previstos, dando mais estabilidade ao projeto nesta nova etapa”, avalia Ivana.
As mudanças implementadas no novo contrato de concessão tornaram o projeto atrativo, apesar de seu histórico, e o lance vencedor superou a expectativa inicial de arrecadação do governo (de R$ 1,5 bilhão), revelando-se um certame bastante competitivo, diz Fernando Vernalha, sócio do escritório Vernalha Pereira. “A saída da INFRAERO da composição acionária da concessionária, mudanças dos encargos, como a exclusão da obrigação de construção de nova pista, e uma série de atualizações regulatórias relevantes, especialmente no sistema de pagamento de outorga, contribuíram para o sucesso desse certame . Esses ajustes regulatórios eram necessários para atualizar o contrato de concessão e torná-lo economicamente viável”, avalia Vernalha.
Paulo Dantas , especialista em infraestrutura e financiamento de projetos do escritório Castro Barros Advogados, diz que a vitória no Galeão consolida a posição da AENA como a maior operadora aeroportuária do Brasil em número de terminais e, agora, também em relevância estratégica do portfólio. “Agora com o Galeão o potencial de exploração tanto de rotas regionais quanto internacionais é bastante significativo”, afirma Dantas.
Gilvandro Araújo, sócio do escritório Urbano Vitalino Advogados e ex-diretor jurídico da INFRAERO, diz que o repactuamento da concessão do Galeão mostra que o problema não está necessariamente no ativo, mas no modelo das primeiras concessões, muito inferior ao atual. “O fato dos interessados no leilão já atuarem no mercado brasileiro mostra que o problema está menos no ativo e mais nesses aspectos estruturais e operacionais. Mas o desempenho do Galeão não depende só de gestão ou investimento. Há dependência da governança do Rio para sustentar demanda de passageiros, especialmente no turismo, o que precisa entrar na equação do novo operador”, diz Araújo.
David Goldberg, sócio-diretor da A&M Infra, avalia que a AENA tinha bons motivos para vir competitiva, já que o Galeão estrategicamente é um ativo que complementa bem o portfólio que ela tem no país. “É um aeroporto muito voltado a tráfego internacional, algo que ela não tinha ainda, embora fosse a concessionária com o maior número de ativos. Então o Galeão complementa muito bem o seu portfólio e traz uma grande visibilidade para a companhia”, diz Goldberg, que ainda lembra que o novo contrato não tem investimentos previstos, e a concessionária já tem um portfólio grande de investimentos para desenvolver com Congonhas e dez aeroportos no bloco arrematado em 2022.
